terça-feira, 15 de julho de 2008

O primeiro debate a gente nunca esquece

Cinco dias depois, finalmente vou comentar o primeiro debate dos candidatos a prefeito de Florianópolis. É, já está virando hábito: em plena era do imediatismo da Internet, os posts deste blog vêm sendo sempre criados com atraso. Desta vez foi a correria do jornal e uma viagem para Jundiaí, onde fui ver a "titular da pasta". O segundo motivo, claro, muito mais importante do que este comentário aqui.. mas, vamos ao que interessa...

Ao menos, eu não era o único estreiante em debates. Pelo menos três candidatos - Angela Albino (PC do B), César Souza Júnior (DEM) e Nildomar "Nildão" Freire (PT) - fizeram, na noite da última quinta-feira, seu debut ao vivo e a cores na tela da TV Barriga Verde. Isso, de certo modo, me deu uma falsa segurança de que não passaria vergonha sozinho. Preparei horas antes - com a consultoria da editora de Política do jornal Notícias do Dia, Ludmila Souza, e do colunista Paulo Alceu - três questões para cada um dos candidatos.

Cheguei na sede da emissora já sabendo que não contaria com a ajuda dos colegas vinculados ao grupo RBS. Sei lá os motivos, mas a empresa gaúcha não participa de debates que sejam promovidos por seus concorrentes. Uma pena. Todos saem perdendo: os veículos de comunicação, os partidos e, principalmente, os eleitores. Afinal, quanto mais opiniões diferentes, ainda mais em um tema como eleições, melhor.

Pode ser inocência de principiante, mas estranhei o fato de estarem lá somente as militâncias do PT e do PC do B. Será que PMDB e PP já se consideram no segundo turno? será que estes tradicionais partidos não estão com suas respectivas militâncias tão afinadas? De qualquer modo, se fosse para eleger um vitorioso no embate entre torcidas, meu voto iria para a do PC do B. Integrado por membros da União da Juventude Socialista (UJS), o grupo fez barulho o tempo todo. Festejaram com entusiasmo a chegada do candidato à vice-prefeito da chapa, Tico Lacerda (PDT). Era só um ensaio para a entrada da vereadora Angela Albino, minutos depois. A turma desceu até a entrada do estacionamento para buscá-la. Foi trazida até a porta do prédio cercada pelos militantes como se eleita já estivesse. "Ousa lutar, ousa vencer, Juventude com Angela no poder" era o grito de guerra, entoado em uníssono.

Fotos: Edu Cavalcanti

Transparência: sorteio de perguntas e ordem dos candidatos marcou o debate

De modo bem mais discreto, Afrânio Boppré (PSOL), Souza Júnior e Amin já estavam no interior da emissora. Nildão e o prefeito Dário Berger chegariam logo em seguida. No estúdio, mais tarde, preparativos finais e o primeiro duelo oficial teve início. Ironicamente, o primeiro (dos vários sorteios) definiu a ordem em que os concorrentes ficariam dispostos no cenário. Acabaram se sentando em ordem quase perfeita os representantes da esquerda e direita. O partido mais radical do grupo, PSOL, na extrema esquerda, com o PC do B (um radical moderado) ao seu lado, com o PT (praticamente uma esquerda de centro) em seguida. A linha continuava com o PP, DEM e PMDB. Entre estes, teoricamente, a ordem correta seria PMDB, PP e DEM, caso as ideologias políticas ainda existissem neste País.

Depois de uma longa e cansativa série de mensagens do dono da Barriga Verde e de representantes da Justiça Eleitoral, o bloco inicial foi marcado por questões gravadas da população aos candidatos. Boppré, por coincidência, sorteou a pergunta do seu irmão, Norton, presidente do Figueirense, que esperava o apoio dos inscritos ao pleito do clube em ser uma das sedes da próxima Copa do Mundo de futebol. Outro destaque veio com Nildão, que fez o primeiro dos vários ataques dos quais o atual prefeito seria alvo. O petista questionou o excesso de obras voltadas para avenidas e túneis. Souza Júnior, apesar de representar uma sigla da Tríplice Aliança, portanto parceira do PMDB, não perdoou Berger e lembrou do atraso na conclusão da Beira-Mar do Continente. Angela estocou o prefeito ao lembrar da saúde do município e Boppré voltou ao tema trânsito, tecendo um comentário mais duro quanto aos elevados construídos pela atual gestão.

No segundo bloco os candidatos fariam perguntas uns aos outros. Angela foi a primeira a lembrar da Operação Moeda Verde e Amin, apesar de questionar Boppré, acabou atacando Berger. O clima esquentou quando Boppré indagou o prefeito sobre a necessidade de abrir uma concorrência pública para o sistema de transporte coletivo da cidade. E Berger voltou a ser esmurrado quando Souza Júnior fez sua pergunta para Angela. Nervoso, o bode expiatório da noite chegou a pedir direito de resposta, que acabou não recebendo.

A quarta série marcou a entrada dos jornalistas no ringue. Eu estava ao lado de dois colegas da emissora e do professor Laudelino José Sardá, um dos ícones do jornalismo local. Garanto que eu só não estava mais nervoso do que o prefeito. Por sinal, ele pediu um segundo direito de resposta e, outra vez, não teve sucesso. Com outros sorteios, minhas questões foram para Souza Júnior, Nildão e Amin. O primeiro, disse que, para levantar mais fundos para os cofres públicos, pretende rever a atual estrutura de secretarias e autarquias. Mas negou que vá demitir funcionários. Não pude, pelo regulamento, questionar qual será a fórmula mágica para gerar economia sem fechar postos de trabalho.

O segundo foi político como sempre. Indaguei se, em uma eventual eleição, Amin não teria problemas ao coexistir com seu inimigo declarado, o governador Luiz Henrique da Silveira (PMDB). O ex-prefeito e ex-governador saiu pela tangente citando que crê em algo como trabalho conjunto pelo bem de todos. Então tá. Confesso que fiquei ligeiramente decepcionado com Nildão. Simplesmente não respondeu minha dúvida de como faria, caso eleito fosse, para comandar uma capital sem ter a maioria na Câmara dos Vereadores. Ele alegou que prefere aguardar o resultado das eleições. Mas não comprovou se terá chances de alcançar a maioria. Não terá.


Réplica: "mas candidato, o senhor não respondeu minha pergunta"

Para o quarto bloco, os candidatos responderam sobre temas de governo. E aí já se via claramente que dois deles ficariam com o título de vencedores do debate caso surgisse a necessidade de definir os melhores. Amin e Angela se saíram melhor do que os concorrentes. Ele usou e abusou da vasta experiência em campanhas. Ela usou e abusou do carisma e do raciocínio rápido para demonstrar preparo e conhecimento. Isso, creio, surpreendeu muita gente.

A série final foi marcada pelas mensagens de cada um dos políticos para os telespectadores. Neste ponto, achei Souza Júnior um tanto quanto vago, com um discurso cheio de lugares-comuns, apesar de ele ter amplo domínio ao falar para a câmara, fruto óbvio de seu trabalho como comunicador. Nildão tem potencial, mas se prendeu ao velho costume do PT em ficar exaltando o governo Lula. Ok, ele é o símbolo do partido, mas a eleição é municipal! Boppré mostrou um bom discurso, porém lhe falta carisma. E Berger? O prefeito não soube reagir às críticas. A impressão era de que ele levou tudo pelo lado pessoal. Acabou não conseguindo expor suas propostas, pois ficou na defensiva demais, mas sem poder de contra-atacar. Uma pena para ele e para a campanha.

De qualquer modo, foi só a rodada primeira. Outros debates virão, além da campanha na rádio e na televisão. Ainda não se pode indicar favoritos. É tudo muito prematuro. A única certeza é de que será uma campanha histórica.

Um comentário:

Rodrigo Lóssio disse...

Vi o debate, Bona, foi muito interessante, mas morno. Senti teu nervosismo em algumas horas, mas creio que fostes muito bem, parabéns.

Agora é aguardar o que o pessoal tem a dizer. Tenho minhas apostas, mas ainda não vou torná-las públicas.

Abração e sucesso.